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MARILA DARDOT

por Nina Rahe

 

"Para que algo exista, devemos nomeá-lo. Para saber algo, devemos ter um conceito para isso. Para nos entendermos, precisamos conversar. Para transformar, precisamos questionar.” Esses são os motivos, segundo a artista Marilá Dardot, pelos quais ela se interessa pela literatura: "por sua liberdade de criar outras palavras possíveis”(1).

A possibilidade de criar outras palavras – e imagens por meio delas – está no cerne de toda sua obra. Seu primeiro trabalho, criado em 1999, quando ainda cursava artes plásticas na Escola Guignard, em Belo Horizonte, foi quase uma materialização de “O Livro de Areia”, conto de Jorge Luis Borges sobre um livro com número de páginas infinito – não sendo nenhuma a primeira nem a última – e que torna o narrador um prisioneiro do objeto, que é capaz de corromper a própria realidade. 

Marilá, por sua vez, para remeter a essa leitura sem fim, cria um livro com páginas de espelho, associando o texto do escritor argentino ao fragmento no qual Heráclito afirma não ser possível o mesmo homem entrar duas vezes no mesmo rio. Mostra que, na literatura e na arte, a tarefa de retornar a uma obra será sempre a de encontrar uma nova, já que o leitor e o espectador não serão mais os mesmos e tampouco a obra permanecerá igual diante de um novo contexto. 

Constante na trajetória de Marilá, esse exercício de mimetizar a linguagem, suprimindo os limites entre a forma e o conteúdo, aparece também em outras peças, como em Educação pela Pedra (2013), na qual a artista inscreve o verso "Para aprender da pedra, frequentá-la", de João Cabral de Melo Neto, sobre o piso com pedras portuguesas do museu Lasar Segall, ou em Porque as Palavras Estão em Toda Parte (2008), instalação em que transforma uma das salas de exposição do Museo de Diseño de Roma em um labirinto com 35 letras de concreto que parecem emergir do próprio chão – as mesmas letras que, quando ordenadas, formam a frase que dá título à obra. 

Se as nossas relações são sempre mediadas pela linguagem, Marilá propõe uma nova percepção do espaço e do tempo, fazendo com que o visitante seja obrigado a mover todo o corpo para ler fragmentos literários, filosóficos ou outros tipos de anotações textuais e transformando também o momento em que nos dedicamos à contemplação em um tempo que é próprio da leitura. Em A Biblioteca de Babel (2005-2011), essa subversão espaço-temporal se dá não só pela transformação do ambiente expositivo em uma biblioteca provisória, com títulos compartilhados pelos próprios visitantes, mas pela inserção da peça A Meia-Noite É Também o Meio-Dia (2004) na instalação, um relógio que leva o dobro para dar uma volta completa. 

Em Ir y Volver (2019), primeira vez em que realizou uma ação ao vivo, Marilá recorre a um verso da poeta cubana Carilda Oliver Labra para materializá-lo em imagem.  Na performance, agora exibida em vídeo, ela escreve com água a frase "A la esperanza vuelvo" em uma parede celeste na cidade de Matanzas, Cuba, e segue escrevendo e reescrevendo letra por letra enquanto o sol as apaga. 

É um trabalho que se inscreve em um segundo momento de sua trajetória, marcado por criações que refletem uma visão menos otimista da situação histórica e política do país. Isto porque, desde 2015, nas obras de Marilá, a realidade passa a concorrer com a literatura. Foi neste ano que a artista realizou seu Livro de Colorir, transformando o gênero que havia se tornado um fenômeno editorial entre adultos a partir de uma extensa pesquisa em jornais. Os exemplares utilizados para aliviar o estresse, dessa forma, tiveram suas imagens de mandalas e jardins substituídas por fotografias de jornais, obrigando o espectador a se defrontar com cenas que costumam ser esquecidas muito rapidamente. 

É o caso também de A República (2016), na qual fragmentos de uma bandeira em decomposição – dela sobram apenas o retângulo, o losango e o círculo – colocam em evidência, no centro da imagem, as palavras mais citadas nos discursos proferidos pelos deputados durante o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff: "Deus", "família" e "meus amigos". 

Assim, por mais que Ir y Volver parta de um fragmento de poesia e fale, à primeira vista, de uma construção eterna da esperança, a duração limitada da performance – e, consequentemente, do vídeo, que não segue em fluxo contínuo – mostra a fragilidade dessa elaboração que, ao vivo, dura o tempo do esvaziamento de um pequeno recipiente d’água  e, no vídeo, 12 minutos e 52 segundos. É uma esperança que, nos tempos atuais, está cada vez mais sujeita à evaporação.

NOTAS

(1) "For something to exist, we must name it. To know something, we must have a concept for it. To understand each other, we need to talk. To transform, we need to question. This is why I am interested in literature, for its freedom to create other possible words." (texto original). Cf. DUARTE, Luisa; PEDROSA, Adriano. ABC – Arte Brasileira Contemporânea. São Paulo: Cosac Naify, 2013.

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