ASTOLFO ARAUJO E

MERCEDES OKUMURAjo

 

Força e Longevidade das Tradições

O leste da América do Sul, ou o que hoje é majoritariamente território brasileiro, pode ser considerado um interessante estudo de caso em termos de mistura de abordagens norte-americanas e europeias para a classificação de fenômenos arqueológicos. A profissionalização da arqueologia no Brasil é bastante recente, iniciando-se no final dos anos 1960 e início dos anos 1970 e, portanto, o conhecimento atual disponível em termos de história cultural para uma área de cerca de 8,5 milhões de quilômetros quadrados (maior que toda a Europa Ocidental) foi construído em pouco mais de 50 anos. Isso pode ser considerado uma benção ou uma maldição, mas o fato é que ainda há muito a ser feito no processo de um melhor entendimento da história cultural desse segmento específico do globo. Os problemas enfrentados pelos arqueólogos na tentativa de entender o registro arqueológico não estão relacionados a nenhum período cronológico específico ou limite espacial. Há uma necessidade comum de clareza teórica e solidez metodológica ao organizar os dados de maneira significativa.

Uma Breve História da Arqueologia Brasileira

Dado o panorama histórico anterior, é possível reconhecer que duas linhas de raciocínio estiveram presentes nesta fase. O PRONAPA, sob uma perspectiva norte-americana (e, portanto, rotulado de “Escola Norte-Americana”), foi responsável pelo mapeamento arqueológico de grandes porções do território brasileiro. Os estudiosos franceses e os arqueólogos brasileiros que tiveram sua formação acadêmica na França eram mais parecidos com o que se chamava de “Escola Francesa”. Em 1968, enquanto Laming-Emperaire publicava um relato da arqueologia brasileira separando “grupos do sertão” de “grupos do litoral” e fornecendo dados e dez idades de radiocarbono para cinco sítios, o grupo PRONAPA tinha mais de 1.000 sítios registrados, dezenas de idades do radiocarbono, tendo também criado várias “tradições” líticas e cerâmicas, cuja definição um tanto problemática será apresentada mais adiante juntamente com as suas origens históricas. A razão para esta tremenda diferença foi que o grupo francês aplicou uma abordagem “paleoetnográfica”, baseada no “método etnográfico” de A. Leroi-Gourhan (por exemplo, Leroi-Gourhan & Laming, 1950; Pallestrini, 1983), e resultando em escavações de grandes superfícies abertas imitando as escavações em Pincevent, na França (por exemplo, Leroi-Gourhan & Brézillon, 1972). O método PRONAPA, por outro lado, foi baseado em algumas escavações de um metro quadrado, geralmente registrando em conjunto todos os materiais encontrados em uma camada de 10 cm. Isso permitiu que esses pesquisadores chegassem ao fundo dos depósitos muito rapidamente, às vezes em um único dia. A escavação era seguida de uma rápida análise de artefatos de pedra e cerâmica e envio de amostras de carvão para datação. Tal estratégia permitiu a organização de uma enorme quantidade de dados em “tradições” e “fases” em poucos anos, algo impensável para os pesquisadores que seguiram a abordagem francesa. O PRONAPA e outros pesquisadores norte-americanos reconheceram pelo menos 49 “fases” até 1972 baseadas em materiais de pedra lascada. Mais tarde, algumas dessas “fases” foram agrupadas e deram origem a “tradições”. As definições de “fases” e “tradições” eram um tanto problemáticas, e as discussões sobre classificação em arqueologia começaram a tentar abordar tais questões.

Dada a definição e o uso um tanto inconsistentes de termos como “fase”, “tradição” pelos pesquisadores do PRONAPA e as influências de novas escolas teóricas, a maior parte da geração posterior de arqueólogos exigiu ativamente o abandono da termos (Dias, 2003:51; Dias, 2007; Dias & Hoeltz, 2010; Hilbert, 1994; Milder, 1999, entre outros), causando problemas importantes em termos de descrição do registro arqueológico, além de dificultar a maioria das tentativas de comparação dados gerados por diferentes pesquisadores. Por outro lado, alguns poucos pesquisadores, influenciados principalmente por Dunnell (1986), tentaram reconstruir os passos históricos que levaram a Arqueologia brasileira a tal cenário e posteriormente discutir possíveis caminhos para dar aos termos mencionados novas definições heurísticas, a fim de resgatar seu uso na Arqueologia brasileira por meio de uma abordagem sistemática e teórica, uma vez que os termos continuam sendo usados. A pergunta mais importante nesse cenário é se as “tradições”, como descritas pelo histórico-culturalismo há mais de cinquenta anos, ainda são um conceito heurístico útil. Atualmente, podemos falar de tradições? Se sim, em que termos?

Alguns Estudos de Caso: Umbu, Itaparica e Lagoa Santa

A maioria dos estudos de caso apresentados aqui se concentrará em materiais de pedra lascada. Desde cedo, arqueólogos, ligados ao PRONAPA ou à escola francesa, reconheceram pelo menos três “tradições” de pedra lascada antigas no Brasil: Umbu, Lagoa Santa e Itaparica (Figura 1). Representavam três tecnologias de lascamento totalmente distintas e contemporâneas, apresentando idades bastante recuadas, e distribuídas em diferentes partes do país (ver Araujo, 2015): a Tradição Umbu no Brasil meridional, apresentando uma indústria formal, incluindo pequenos raspadores unifaciais e pontas (Figura 2), com sítios datados entre 12.800 anos atrás e o século XVII (Okumura & Araujo 2015); a Tradição Itaparica no Brasil central e nordeste, apresentando apenas lascamento unifacial e um único tipo de artefato formal (raspadores em formato de lesma – Schmitz 1980 – Figura 3), que está datada entre 14.000 e 8.000 anos atrás, representando pelo menos 6.000 anos de persistência da cultura material, correspondendo a 300 gerações (Araujo & Okumura 2021); e a indústria de Lagoa Santa, completamente desprovida de artefatos formais, compostas principalmente por pequenas lascas de quartzo (Figura 4), com datas entre 12.500 e 4.200 anos atrás, representando 8.300 anos de persistência cultural ou 415 gerações (Araujo et al. 2017). Em termos de áreas, a Tradição Umbu abrangeria uma área de 510.000 km², equivalente ao tamanho da Espanha. Itaparica compreende cerca de 1.280.000 km², quase as áreas combinadas da França, Alemanha e Reino Unido. A área de Lagoa Santa não está bem estabelecida, mas também parece bastante grande. A faixa norte-sul mostrada na Figura 1 equivale a 1.000 km.

Dada a breve apresentação desses estudos de caso, podemos passar a responder ao ponto levantado, sobre a utilidade heurística do conceito de “tradição”. Nossos exemplos apoiam fortemente a hipótese de que no registro arqueológico do leste da América do Sul existe de fato um fenômeno que podemos chamar de “tradições culturais”, especialmente se usarmos o termo como definido por O'Brien et al. (2010:3797): “maneiras padronizadas de fazer as coisas que existem de forma identificável por longos períodos de tempo”.

Conclusões

Como observação final, esperamos que nossos estudos de caso possam ser úteis para pensar as adaptações humanas nos últimos 12.000 anos como o produto de propriedades emergentes, e não como algo que está “embutido” nos humanos modernos, como “capacidades simbólicas aprimoradas” ou simplesmente “cérebros grandes”. A lógica é simples: temos três casos de grupos humanos modernos que (muito provavelmente) não eram geneticamente idênticos ou culturalmente relacionados, mas todos eles mostraram taxas muito baixas de mudança cultural. Tendemos a explicar isso como uma convergência que aponta para uma compreensão dos processos culturais que está em desacordo com a visão comum de que a mudança cultural em humanos modernos é necessariamente rápida. Dado um ambiente relativamente estável, grandes territórios para se movimentar e (com toda a probabilidade) uma população relativamente baixa, esses grupos humanos pretéritos do leste da América do Sul pareciam manter sua estrutura cultural por períodos extremamente longos.

Entendemos que esses artefatos constituem um forte indicador da operação de uma “metatradição” (Palmer, 2010), ou um mecanismo de preservação da tradição, que poderia ser benéfico quando as condições ambientais são estáveis, incentivando a transmissão fiel e evitando variações culturais que poderiam ser potencialmente prejudiciais (VanPool e Savage, 2010). É importante notar que a preservação de uma tradição é um mecanismo ativo, e não uma mera “ausência de inovação” (Palmer, 2010). A tradição deve ser mantida deliberadamente, o que contraria o esperado resultado da evolução cultural, onde o aumento do tamanho da população e a deriva tenderão a aumentar a variabilidade cultural e a mudança (Neiman, 1995; Shennan, 2000, 2001).

SOBRE OS AUTORES

ASTOLFO ARAUJO

Museu de Arqueologia e Etnologia / USP

MERCEDES OKUMURA

Instituto de Biociências / USP

REFERÊNCIAS

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