DIOGO MORAESlva

por Charlene Cabral

 

É notável o esforço empreendido pelas chamadas artes visuais em ofertar sua presença através de exercícios de ampliação de públicos que, de modo significativo, vêm incrementando agendas institucionais de diferentes envergaduras. A despeito do que opinam os espectadores, esforços de todo tipo são realizados por agentes, organizações e espaços de arte para que eles convivam, participem, consumam, escutem, reflitam e, eventualmente, emitam posicionamentos a respeito de trabalhos ou situações artísticas as mais variadas. Assim, a uma certa massa genericamente chamada público vêm sendo atreladas não somente métricas que geram subsídios e patrocínios, mas o próprio endereçamento e eventualmente a boa ou má fama de tantos projetos poéticos, curatoriais e educativos. Um papel complexo de se representar: ao mesmo tempo em que se destina um esforço para que o indivíduo se cerque de potencial artístico e disso extraia algum tipo de experiência, tal acercamento não deixa de supor certas boas maneiras ou, como mínimo, algumas expectativas de diálogo por parte de quem propõe o cont(r)ato.

Uma das primeiras atenções a que a pesquisa de Diogo de Moraes Silva nos convida a estar alerta é à inescapável pluralidade do termo: e aqui passamos a públicos, saindo do singular. Nesse sentido, compreende-se o lugar de recepção como um local de revezamentos, sem cadeira cativa, portanto heterogêneo e, como tal, podendo devolver à arte comportamentos por ela não previstos e/ou não desejados.

“Situações imprevistas” é o termo que Moraes mobiliza para se referir ao trabalho em progresso Episódios Contrapúblicos (2014-), representado em "Contar o tempo" por 16 relatos conjugados a desenhos decalcados, apresentados em folhas volantes que podem ser levadas pelos visitantes. Nesses episódios, o artista marca situações de ruído atreladas à recepção de obras por certos indivíduos ou grupos de pessoas em diferentes contextos ou momentos históricos. Lhe interessam justamente aqueles casos de quebra do contrato, em que os tais públicos evadem os comportamentos considerados adequados ou consensuais, complexificando o evento de recepção da arte. Surge o termo contrapúblicos em escritos que não iniciam nem terminam neste trabalho de Moraes, mas que derivam e se estendem a um campo teórico dentro do qual sua pesquisa, artística e acadêmica, se situa(1). Agentes de uma contrapublicidade, esses contrapúblicos acabam sendo associados, por diversos autores, a características progressistas, o que a análise tecida pelo artista, em colaboração com o pesquisador Cayo Honorato, busca refutar. Em sua oposição a um público dominante, seria possível visualizar uma heterogeneidade de pautas nos contrapúblicos, unidas não necessariamente por uma proximidade identitária, mas por uma performatividade específica.

“Referimo-nos à possibilidade de que os contrapúblicos performem atitudes, discursos e expressões decididamente estranhos àqueles valorizados pelos artistas, curadores, educadores, etc(2)”, escrevem eles.

São essas performatividades de várias ordens que Diogo de Moraes explora não apenas na série exposta em "Contar o tempo", mas também em projetos como Diário de Busão (2015-2017), no qual acompanhava escolares em excursões a espaços de arte da capital paulista, de modo a "observar suas formas de se relacionar com aquilo que surge durante a visita, a fim de poder narrá-las posteriormente", conforme explica o artista a um grupo de estudantes, conteúdo reproduzido em uma das narrativas gráficas resultantes. Em Episódios Contrapúblicos, ao oferecer a outros espectadores histórias protagonizadas por ocupantes deste mesmo papel, ele exercita a circularidade do trabalho, acentuada pela aparente neutralidade de seu modo anedótico de contar a história. Moraes apresenta a situação, enxugada em poucas linhas factuais e conjugadas a um desenho lúdico ilustrativo. Não que esteja totalmente oculto seu posicionamento, este é sempre conjeturável, mas um dos interesses desse trabalho consiste justamente em esquivar-se de uma autoria marcada com o fim de levar públicos a visitarem outros públicos, situações e algumas intenções institucionais frustradas, aproveitando-se do fato de estarem ocupando, de modo eventual, lugares análogos.

O papel desempenhado por esse artista-mediador-pesquisador se aproxima aqui da figura do ouvidor (ou ombudsman). Se este último é um agente colocado por uma empresa a serviço do público para que promova situações de mediação entre uma e outro, nos melhores casos exigindo uma postura autocrítica por parte da primeira, Diogo de Moraes também se coloca, em certa medida, como um representante do campo da arte que faz ecoar dentro desse sistema episódios conflitivos diversos. É a prática da mediação em uma concepção de mão dupla, que não procura blindar nem públicos, nem trabalhos artísticos, nem agentes do campo ou instituições, apostando pelo despertar de uma postura compreensiva, como o próprio artista a denomina. Compreensão no sentido de perceber o sentido de determinada situação, de examiná-la com inteligência e assimilá-la com clareza.

Quando nos propomos a examinar atentamente a recepção de trabalhos, mas também outras instâncias da cadeia que permite que determinada produção alcance uma exposição pública, tornam-se flagrante os paternalismos mascarados como programas, as contradições insolúveis e os mecanismos de poder que formam a complexa trama disso que denominamos sistema da arte. Do outro lado dessa vitrine – irregularmente permeável –, um tecido social absolutamente complexo e diverso, com suas diversas agendas, posições, traumas coletivos. Da interação entre as partes, toda sorte de conflitos que permitem situar a obra em relação ao seu momento histórico e que oferecem a chance de pluralizar e problematizar narrativas, exercitando a crítica e a autocrítica social.

NOTAS

(1) Cf. SILVA, Diogo de Moraes. A recepção como elo da obra de arte com o mundo e com a história. Revista Ars, São Paulo, n. 40, ano 18, p. 196-236, fev./out. 2020.

(2) HONORATO, Cayo; SILVA, Diogo de Moraes. Mudança estrutural dos contrapúblicos em face a controvérsias artístico-culturais. Revista Poiésis, Niterói, v. 22, n. 38, p. 309-343, jul./dez. 2021.

00:00 / 01:00
Screen Shot 2022-04-11 at 21.23.55.png
Screen Shot 2022-04-11 at 21.24.18.png
diogo_1.png