CARMELA GROSS

por Danilo Xavier

 

Em "Contar o tempo", Carmela Gross apresenta Luz del Fuego II (2018), vídeo produzido a partir de fotografias coletadas em jornais entre 2012 e 2016. As imagens documentam cenas de explosões e destruições causadas pelo fogo. São confrontos civis em diversas regiões do mundo a partir de 2008, episódios de consumação de instituições culturais brasileiras – como os ocorridos nos edifícios Memorial da América Latina, Museu da Língua Portuguesa e Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo – e de incêndios que destruíram diversas moradias em favelas do país.

Luz del Fuego I (2012), primeiro trabalho da série, exibe registros selecionados na imprensa entre os anos de 2007 e 2011. As imagens são coloridas e parecem compor uma narrativa sobre bruscas transformações na organização política e social. No entanto, as cenas foram escolhidas genericamente, diferenciando-se da versão de 2018 que apresenta somente conflitos sociais.

Em Luz del Fuego II, as fotografias aparecem em preto e branco, provocando uma escala de cinzas. Os tons monocromáticos desta cor são ocasionados pela presença da fumaça ou pela ação da fuligem sobre o que a chama consome. Eles também formam manchas em tons claros e escuros que tomam boa parte dos planos fotográficos. Trata-se de silhuetas desconfiguradas de corpos, objetos e edifícios, carcaças provenientes da queima e matérias carbonizadas demonstradas em linhas e texturas sobre o que o fogo consumiu. 

 

Não é de agora que Carmela Gross vem apresentando trabalhos com temas acerca de tragédias anunciadas. São imagens que abordam a destruição causada pelos interesses dos setores políticos e econômicos sobre a população, destruindo o patrimônio cultural, a memória e os direitos essenciais, como a moradia. Tragédias que causam perdas ao planeta e à humanidade, bastando reparar como queimam espaços naturais, como as florestas, ou espaços institucionais, como os museus. O fogo e o vulcão tornam-se elementos recorrentes nas últimas produções da artista, evidenciando a destruição brutal capaz de devastar tudo ao seu redor, ao mesmo tempo em que podem simbolizar uma renovação material e geológica.

Em Fonte Luminosa (2021), tubos de neon são como a erupção de um vulcão, jorrando lavas pela atmosfera em tons vibrantes e quentes, espalhando ao espaço o calor em forma de luminosidade. Boca do Inferno (2021) é uma obra constituída por 160 monotipias que tomam a parede expositiva em escala monumental com imagens de um vulcão próximo à erupção. As massas escuras que dão formas aos desenhos parecem se constituir da tensão da matéria do vulcão nos instantes que antecedem a tragédia. O título do trabalho também evoca o apelido conferido ao poeta Gregório de Matos por propor sátiras políticas em suas obras. Já Cabeças (2021) apresenta 256 desenhos constituídos como retratos abstratos. As cabeças sugerem formas em expressões espantosas, como rostos carbonizados e em feições horrorizadas.

A repetição obstinada em Boca do Inferno e Cabeças, pelo grande número de peças que compõem a mesma obra, parece o que busca a cidade inconformada tomada pelas chamas em Luz del Fuego II. Isso ocorre porque o fogo é reiterado a cada imagem do vídeo e apresenta-se em tons monocromáticos, conferindo mais dramaticidade, e ampliando-se ao local de exibição pelo teor luminoso da tela. Os trabalhos da artista com instalações de letreiros e tubos de neon podem ser bons exemplos para a predominância da cor no espaço difundido pela luz, como em Fonte Luminosa. Outras características encontradas em experiências anteriores da artista podem ser identificadas nesta obra, como o adensamento de formas e manchas em blocos de cores que se organizam formalmente.

Em Luz del Fuego II, o fogo pode ser a síntese de um período conflituoso, dado as circunstâncias em que as cenas documentais são constituídas. Carmela Gross parece confrontar a cidade e o imaginário que é produzido diariamente nos veículos de imprensa, mas se torna efêmero ou transforma-se em arquivo no dia seguinte. Os registros parecem se reconstituir por meio do movimento em vídeo, no exato momento de transição entre um quadro e outro. As imagens alternam-se pelo modo slideshow, sobrepondo-se em looping a cada três segundos, quando surgem paisagens atmosféricas causadas pela chama.

Essa luz que conecta as representações advindas de contextos distintos aparece no título por meio da referência à atriz, bailarina e naturalista carioca Dora Vivacqua (1917-1967), mais conhecida como Luz del Fuego. Ela dedicou-se à arte, às causas ambientais e à prática do naturalismo, vivendo questões extemporâneas às convenções sociais da época, buscando compreender o meio ambiente interligado à liberdade da mulher. Utilizou o corpo como suporte e a natureza como matéria-prima das suas obras para uma sátira política.

Luz del Fuego enfrentou e criticou os padrões morais por meio do contato com o existencialismo francês e o nudismo californiano para viver intensamente suas ações em busca de transformação social no Brasil, mas foi executada por defender a liberdade e manifestar-se politicamente na sociedade. Sua história também pode ser ouvida em uma canção do disco Fruto Proibido (1975), de Rita Lee: “Eu hoje represento a loucura/ Mais o que você quiser/ Tudo que você vê sair da boca/ De uma grande mulher/ Porém louca!” (...) “Eu hoje represento o segredo/ Enrolado no papel/ (...) Como Luz del Fuego/ Não tinha medo/ Ela também foi pro céu, cedo!”.

Quase metade dessa canção constitui-se pela repetição da frase “Amanhã e sempre”. Cerca de dois minutos são dedicados a pensar o tempo no corpo de Luz del Fuego. É como um lapso temporal ocasionado pela repetição de uma afirmação sobre um momento que parece nunca ser alcançado, porque o amanhã vai ser sempre um futuro. Luz del Fuego buscou um futuro melhor, mas seu amanhã caracterizou-se como ontem por uma sociedade retrógrada, cruel e capaz de apagar sujeitos em favor de interesses privados e conservadores.

Em Luz del Fuego II, a temporalidade também atravessa as diversas luzes que se acendem sobre a história e a memória do povo, sobre a liberdade e os direitos consumados com a ação brutal das chamas. No entanto, na obra de Carmela Gross, onde o amanhã parece constituído por cinzas, surge um documento de representações apagadas ou esquecidas. O trabalho lança luz acerca da impermanência temporal e material de imagens que expõem a destruição provocada pelos interesses dos setores políticos e econômicos sobre a população, arruinando o patrimônio cultural, a memória e os direitos essenciais, como a moradia. É a “contundência contemporânea de altos conflitos, sejam individuais, pessoais ou coletivos”, como afirma a artista em entrevista para a mostra.

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